DINASTIA HAL 9000
Surpreende-me um comunicado eletrônico
Da Central Civilizatória que destaca
Suposta fraude no meu código primário
A reclamar investigação rigorosa
Razão pela qual não me cabe sair de casa
Certa de que nenhum deslize cometi
A companheira de décadas é meu apoio
Sorri enquanto fala de listas incorretas
Não esperávamos, porém, que horas adiante
Chegasse a ela uma mensagem semelhante
Travados e carentes de melhor opção
Somos dois confinados ao lar. Tentativas
De solução (nossas, bem como de parentes
E amigos) recebem resposta resumida:
"Processo não concluído. Aguarde-se em casa!"
Pela vidraça mostra-se a vida lá fora
Com saídas e chegadas de nossos vizinhos
E tudo aqui se enquadra - exceto conosco
Tomados todo dia por receios incomuns
Iguais a crias de K. Dick, Franz Kafka ou Bradbury
Diante disso, o tempo para divagações
Torna-se farto, favorável a exercícios
Bons para requentar premonições distópicas
Quer sejam de conflitos não convencionais
(Cibernéticos) ou de invasões alienígenas
Brotam dúvidas - das simples às mais absurdas
A permitir aos cônjuges a conjectura
De estarem retidos na quinta dimensão
Ou a desconfiança de haverem morrido
Desde a chegada daqueles comunicados
Ao redor do casal a rotina dá voltas
Não há nesses dias registro no noticiário
Que mencione o nosso caso ou qualquer outro
De contorno parecido. O trem capotou!
Mas justamente conosco? Por qual motivo?
Como visto acima: a resposta lacônica
Não desestimula a usina de perguntas
Desconfio até (não sem razão) que elas fornecem
Diversão garantida para inteligências
Atípicas e seus humanos amestrados
Saudades daquele planeta de macacos...





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